quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Senti, parte 4

A curiosidade despertava, mas no fundo não queria saber o que ela estava prestes a dizer, não esperava nada de bom a sair por aqueles lábios.
"Eu sei que não deveria ter feito aquilo, eu sei disso..e não sei se deva dizer..." "se preferires não digas" ela olhou para mim e deu-me o sorriso mais sincero que já vi, como se lhe tivesse tirado um peso de cima, "e tu? Qual é a tua história?", perguntou-me chegando-se mais para mim e abrindo os olhos que a cada minuto que passava me pareciam mais especiais, "pois, eu não tenho assim..tipo,,nada de especial.." ela voltou a dar-me aquele sorriso brutal "porque é que te estás a rir?" "tu, és diferente .." "diferente como?" "sei lá, és diferente e isso é bom" .."ainda bem..". O que é que iria acontecer a seguir, eu não podia mantê-la na minha casa, seria demasiado arriscado..seria melhor falar com os meus pais? Não! Acho que não. Esquece isso rapaz, aproveita para simplesmente estar com essa miúda que pela primeira vez representa algo real na tua vida.
"e agora? O que é que fazemos?" perguntei enquanto a fitava novamente, de certeza que estava a incomodá-la com o meu olhar insistente, "não sei, eu nem devia estar aqui...talvez fosse melhor ir-me embora!" e dito isto saltou da cama e correu para a porta num ápice, antes de lá chegar já eu estava à sua frente. "Estás a falar a sério? Vais embora assim? Sem mais nem menos?" .."eu..só estou aqui a fazer porcaria, é só isso que eu sei fazer não percebes?!" agarrei-a com força e puxei-a para mim, "tu não fazes porcaria, tu és tu e mais ninguém, agiste como devias agir e é isso que te torna uma pessoa tão forte e tão bonita!" .. bem, os olhares trocados poderiam muito bem ter causado um incêndio brutal, mas por sorte isso não conteceu! "filho! Que baraulho é esse aí em cima? Já viste que horas são?!", fui à porta "sim mãe, desculpa...eu..estou a tentar dormir e..." "vá anda lá, vê lá se dormes!" "sim mãe, xau", fechei a porta...ela estava embrulhada nos cobertores a silenciar o riso estridente que mesmo assim se conseguia ouvir, "é que isto tem uma piada desgraçada", "desculpa, não dá para resistir".
Talvez seja mesmo bom estar aqui, com uma perfeita estranha que gosta de se rir e de viver, fazendo brilhar os olhos cansados de uma vida que não merecia.

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